De onde vem quem se muda para o Uruguai? O que mostram os dados do Censo 2023
INGAR · · Análise
De acordo com a tabela de origem do Censo 2023, viviam no Uruguai 107.578 pessoas nascidas no exterior, classificadas por país de nascimento. A Argentina aparecia em primeiro lugar, com 31.894 pessoas, seguida por Venezuela, Cuba e Brasil.
O retrato muda por completo quando o recorte é apenas quem declarou ter chegado entre 2012 e 2023: nesse caso, o topo da lista é da Venezuela, com 15.230 pessoas, seguida por Argentina e Cuba.
Os dois rankings estão corretos. Eles simplesmente respondem a perguntas diferentes:
- Estoque total: pessoas nascidas no exterior que residiam no Uruguai no momento do censo.
- Coorte recente: aquelas que declararam ter chegado entre 2012 e 2023 e continuavam morando no país em 2023.
Esse segundo número não equivale a todas as entradas do período: ele deixa de fora, por exemplo, quem chegou e foi embora antes do censo.
Vale ainda um esclarecimento que evita mal-entendidos: o Censo classifica por país de nascimento, e não por nacionalidade nem por último país de residência. Alguém nascido na Argentina pode ter morado na Espanha antes de vir, e alguém nascido nos Estados Unidos pode ter cidadania uruguaia.
Principais países de nascimento
| Posição | País de nascimento | Pessoas | % do total |
|---|---|---|---|
| 1 | Argentina | 31.894 | 29,6 % |
| 2 | Venezuela | 16.115 | 15,0 % |
| 3 | Cuba | 11.838 | 11,0 % |
| 4 | Brasil | 10.731 | 10,0 % |
| 5 | Espanha | 8.187 | 7,6 % |
| 6 | Estados Unidos | 3.085 | 2,9 % |
| — | Outros países | 23.269 | 21,6 % |
| — | País de nascimento ignorado | 2.459 | 2,3 % |
| Total | 107.578 | 100 % |
A Argentina responde por quase 30 % do total e tem aproximadamente o dobro de residentes da Venezuela.
Quem chegou entre 2012 e 2023
Entre as pessoas nascidas no exterior que moravam no país em 2023, 56.906 declararam ter chegado entre 2012 e 2023.
| Posição | País de nascimento | Chegados 2012–2023 | % da coorte |
|---|---|---|---|
| 1 | Venezuela | 15.230 | 26,8 % |
| 2 | Argentina | 12.186 | 21,4 % |
| 3 | Cuba | 11.338 | 19,9 % |
| 4 | Brasil | 3.513 | 6,2 % |
| 5 | Espanha | 1.591 | 2,8 % |
| 6 | Estados Unidos | 1.151 | 2,0 % |
| — | Outros países | 11.728 | 20,6 % |
| — | País ignorado | 169 | 0,3 % |
| Total | 56.906 | 100 % |
Venezuela, Argentina e Cuba concentram 68,1 % dessa coorte.
E aqui cabe dizer algo que contraria boa parte do que se costuma ouvir: Espanha e Estados Unidos somam 2.742 pessoas, ou 4,8 % das chegadas recentes. Os dados não sustentam a ideia de uma imigração ao Uruguai vinda sobretudo da Europa ou dos Estados Unidos. Essa comunidade existe, é visível em alguns bairros e tem alto poder aquisitivo — mas não é o grosso do fenômeno migratório.
Venezuela e Cuba: duas comunidades de formação recente
Veja que proporção de cada grupo declarou ter chegado entre 2012 e 2023:
| País de nascimento | Total de residentes | Chegados 2012–2023 | % do grupo |
|---|---|---|---|
| Cuba | 11.838 | 11.338 | 95,8 % |
| Venezuela | 16.115 | 15.230 | 94,5 % |
| Argentina | 31.894 | 12.186 | 38,2 % |
| Estados Unidos | 3.085 | 1.151 | 37,3 % |
| Brasil | 10.731 | 3.513 | 32,7 % |
| Espanha | 8.187 | 1.591 | 19,4 % |
As populações nascidas em Cuba e na Venezuela recenseadas no Uruguai são quase inteiramente recentes: cerca de 95 % chegou de 2012 em diante.
Já a espanhola tem um perfil histórico: apenas 19,4 % chegou nesse período.
Essas proporções não são taxas de crescimento e nada dizem sobre quantas pessoas chegaram e depois foram embora.
A tabela completa
| País de nascimento | Antes de 2000 | 2000–2011 | 2012–2023 | Ano ignorado | Total |
|---|---|---|---|---|---|
| Argentina | 11.966 | 5.038 | 12.186 | 2.704 | 31.894 |
| Brasil | 4.038 | 1.574 | 3.513 | 1.606 | 10.731 |
| Cuba | 157 | 142 | 11.338 | 201 | 11.838 |
| Espanha | 4.718 | 1.249 | 1.591 | 629 | 8.187 |
| Estados Unidos | 448 | 1.317 | 1.151 | 169 | 3.085 |
| Venezuela | 404 | 237 | 15.230 | 244 | 16.115 |
| Outros países | 6.828 | 3.420 | 11.728 | 1.293 | 23.269 |
| País ignorado | 669 | 129 | 169 | 1.492 | 2.459 |
| Total | 29.228 | 13.106 | 56.906 | 8.338 | 107.578 |
Fonte: INE (o instituto nacional de estatística do Uruguai), Censo 2023, tabela 4.
Duas limitações que convém ter em mente: o ano de chegada aparece como ignorado para 8.338 pessoas (7,8 % do total) e o país de nascimento é desconhecido para 2.459 (2,3 %).
Além disso, a coluna "antes de 2000" cobre um período muito mais longo que as demais. Não faz sentido comparar seus números diretamente nem usá-los para calcular taxas de crescimento — um erro bastante comum nas reportagens que citam essa tabela.
A imigração aumentou em relação a 2011?
O INE aponta que o Censo 2011 havia registrado aproximadamente 24.500 pessoas nascidas no exterior chegadas nos dez anos anteriores. O Censo 2023 captou cerca de 56.900 em sua coorte recente.
O estoque de imigrantes recentes residentes cresceu bastante. Mas os dois números são fotografias censitárias: não representam entradas registradas na fronteira nem incluem quem chegou e já não morava no país quando cada censo foi feito. E as janelas de tempo não são idênticas.
Imigração, emigração e saldo migratório
Entre 2011 e 2023 a população cresceu 86.815 pessoas, com um crescimento natural de 94.608. A diferença é de −7.793.
O INE chama isso de "saldo migratório implícito" e esclarece que se trata de uma medida indireta, não de uma estimativa específica da migração internacional. Pela magnitude pequena e pelas dificuldades de mensuração, o instituto adotou em suas estimativas uma hipótese de saldo migratório nulo para 2011–2023.
Isso não quer dizer que ninguém entrou nem saiu. Quer dizer que, com a informação disponível, não se considerou possível determinar o balanço líquido com precisão suficiente.
Como referência complementar sobre a emigração uruguaia: as pessoas nascidas no Uruguai residentes na Espanha passaram de 80.136 em 2012 para 86.620 em 2023, enquanto os censos argentinos registraram 116.592 em 2010 e 95.384 em 2022.
Essas variações não são fluxos migratórios diretos: também pesam retornos, falecimentos, mudanças para terceiros países e diferenças metodológicas entre os registros.
Residências concedidas não é o mesmo que imigrantes chegados
O Uruguai publica, sim, o número de residências concedidas (autorizações legais de permanência no país). Segundo o Anuario Estadístico Nacional (o anuário estatístico oficial uruguaio):
| Ano | Residências concedidas |
|---|---|
| 2022 | 6.310 |
| 2023 | 9.689 |
| 2024 | 16.870 |
Os dados podem ser consultados por continente e país de origem.
Mas uma residência concedida não equivale a uma chegada naquele ano: a decisão pode se referir a alguém que já morava no país, e mudanças administrativas ou programas especiais podem inflar a quantidade de processos resolvidos em um exercício.
Por isso não se deve misturar pessoas nascidas no exterior recenseadas, residências concedidas, entradas e saídas de fronteira, imigrantes efetivos e pedidos de refúgio. Cada indicador mede uma coisa diferente, e boa parte da confusão pública nasce justamente de somá-los.
Que perguntas essa tabela não responde
Ela não permite saber quantas pessoas efetivamente entraram a cada ano, quantas chegaram e voltaram a ir embora, por quanto tempo pretendem ficar, qual foi seu último país de residência, que nacionalidade têm hoje, quantos imóveis compraram ou alugaram, em que bairros se instalaram nem qual é seu orçamento imobiliário.
Os microdados do Censo 2023 permitem estudar variáveis educacionais, de trabalho, familiares e territoriais, sempre com universos equivalentes e controlando idade, ano de chegada e disponibilidade de dados.
Quando algo não está publicado, é possível solicitá-lo ao órgão competente pela Ley 18.381, a lei uruguaia de acesso à informação pública. Detalhamos o assunto em quais dados migratórios o Uruguai não publica.
Três conclusões que os dados de fato sustentam
- A Argentina segue sendo o principal país de nascimento, com 31.894 residentes.
- A Venezuela lidera a coorte 2012–2023, com 15.230.
- Cuba e Venezuela são os grupos de composição mais recente: cerca de 95 % chegou de 2012 em diante.
Perguntas frequentes
Qual é o principal país de nascimento entre os imigrantes residentes?
A Argentina: 31.894 residentes nascidos lá.
Que país lidera entre quem chegou a partir de 2012?
A Venezuela, com 15.230.
Quantas pessoas nascidas no exterior chegaram entre 2012 e 2023?
O Censo contou 56.906 que moravam no país e declararam ter chegado nesse período. Não inclui quem chegou e foi embora antes.
Quantas pessoas nascidas nos Estados Unidos vivem no Uruguai?
3.085 recenseadas; 1.151 declararam ter chegado entre 2012 e 2023.
E nascidas na Espanha?
8.187 no total; 1.591 chegaram nesse período.
Esses dados mostram quais nacionalidades compram mais imóveis?
Não. O Censo mede população residente e país de nascimento; não publica operações imobiliárias por nacionalidade.
Por que circulam rankings diferentes na internet?
Porque alguns comparam o estoque total e outros, a coorte recente. E porque é comum misturar país de nascimento, nacionalidade, residências concedidas e movimentos de fronteira.
Vir de um país ou de outro não muda o processo de compra de um imóvel, mas muda as prioridades de localização. Os serviços para estrangeiros incluem essa análise, e os imóveis publicados permitem comparar opções.
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Fontes
- INE — Censo 2023: população estimada, crescimento intercensitário e estrutura por sexo e idade (tabelas 3, 4 e 5)
- INE — Portal oficial do Censo 2023
- INE — Residências concedidas por ano, continente e país (Anuario Estadístico Nacional)
- Dirección Nacional de Migración (o órgão migratório do Uruguai) — Anuário Estatístico 2025
- INDEC (o instituto de estatística da Argentina) — Migrações, Censo 2022
- IMPO (o diário oficial uruguaio) — Ley 18.381 de acesso à informação pública
Informações revisadas em 1º de agosto de 2026. As estatísticas migratórias devem ser interpretadas conforme a definição e o período usados por cada fonte.